14 de dezembro de 2007

MOMENTO


Sem pensar nasce um sorriso,
Independentemente do lugar.
Duas mentes; o instante,
Simplesmente a partir de um olhar.
Primitivamente o beijo,
Delicadamente invade um verbo:
Namorar.

16 de outubro de 2007

Eterno Silêncio



Hoje a Morte veio ordinariamente, levou-te minha fiel companheira, tu que de entre todos sempre tiveste um amor imenso, um momento de atenção para com os outros, mesmo na tua enfermidade, esses olhos esverdeados sempre demonstraram um amor incondicional, capaz de morrer para defender aquilo que era o mais importante para ti, a família.

Tu que nunca deverias ter feito parte da minha vida, mas quis o destino que assim fosse, quis o destino que tu ocupasses um lugar no meu coração. Foste um anjo que partilhou os meus bons e maus momentos nesta minha aventura africana, eu arrastei-te para isto, e tu nunca reclamaste, nunca questionaste se tinha ou não sido a melhor escolha.

Resta-me um pensamento cristão de que tudo o que é nosso acompanhar-nos-á no outro mundo, espero poder voltar a ver-te um dia minha querida.


Em homenagem á minha Nancy, nascida a 18/06/2005 .

14 de outubro de 2007

A Essência


A essência

A essência da vida são os outros. A nossa época é-lhes contrária por várias estupidezes. As pessoas vangloriam-se de ser independentes, individualistas, auto-suficientes, egocêntricas, únicas, solitárias, livres. Dizem: "Quero lá saber o que os outros pensam!" sem perceber a terrível vaidade que isso implica. Para ter a noção do pouco que valemos, basta subtrair ao que somos o que aprendemos, o que lemos, o que vivemos com os outros. É só ver o que fica. Coisa pouca. Sózinho quase ninguém é quase nada. É somente juntos que podemos ser alguma coisa. A verdade é que devemos tudo a quem já deu, já morreu, já disse, já escreveu. E a nossa felicidade devêmo-la, não a nós próprios, mas a quem vive ou viveu ao pé de nós. Será isso o que custa tanto a aceitar. (...) No pouco tempo em que vivemos e trabalhamos, limitamo-nos a acrescentar um ponto ou outro à soma que já existe. Um dia morremos. A morte é o preço que se paga pelo facto de vivermos tão facilmente. Pelo facto de não termos de inventar a língua que se fala de não escrevermos os livros que se lêem, de não fazermos o pão que se come, de não sermos obrigados a estabelecer e a negociar as regras com que se vive. Os outros são a sorte que nos cabe, são o azar que nos calha. São o nosso último recurso e a nossa primeira obrigação. Esta é a essência da sociedade. Enriquecemos quando os outros são ricos, empobrecemos quando eles são pobres. Deixêmo-nos de betices. O sentimento mais importante de todos é a solidariedade. (...) Os outros são a nossa única justificação possível. Segui-los e servi-los , por questões de sabedoria e sentimento, é a nossa mais maravilhosa oportunidade.O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode amar-se toda a humanidade. Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível mas uma pessoa vai andando. Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil.Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar. Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única coisa que ía sobreviver a nós era o amor. O amor, Vive-se sem paixão, sem correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. É verdade, sim senhores. Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro.O amor é um abandono porque abdicamos, de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mais tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás. O amor é que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por uma amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar? (...) A essência da vida está fora de nós. Está nos outros todos juntos, sem lugar, sem tempo, sem saber como. A única coisa que temos é o amor.


Miguel Esteves Cardoso, "Último Volume", Assírio & Alvim, Lisboa, 2001, pp.71/2/3/4

20 de setembro de 2007

SAUDADE


Nada pode substituir o calor de um cumprimento face a face. Mesmo assim, pensamentos podem cruzar a distância e levar sorrisos e abraços, de lembrança...

29 de agosto de 2007

Oração


Possa eu ser em todos os tempos, hoje e sempre

O protector dos que não têm protecção

O guia dos que perderam o caminho

Um barco para os que têm de atravessar oceanos

Uma ponte para os que têm de atravessar rios

Um santuário para os que estão em perigo

Uma lâmpada para os que não têm luz

Um refúgio para os que não têm abrigo

E o servente de todos os que precisam."



Sua Santidade o Dalai Lama

18 de agosto de 2007

Tristeza


Tristeza

Que me invade os sentidos

A solidão é um convite

À morte dos dias

Lágrima que já não cai

Olhar dormente vazio

Nas últimas horas dos dias

Sofrimento

Que já não tenho nem sinto

Tu... ilusão, condeno

Feitiço quebrado

Aurora negra

És meu sangue parado

Morto, vidrado

Vazio

Tudo deixou de ser

De estar, de existir

Resta-me o vazio

Do meu olhar parado

Cálido, num corpo sem vida

Sentir

Qual sentir?

Se já não sinto quem sou

Nem sinto quem és, o que és

Ao que vens

Em mim nada habita

Nada floresce

Geada de pedra cresce

Erva daninha

São meus braços troncos

Estéreis, frios

Onde tudo finda

Fecundo é o mar que lava a alma

Na noite negra do meu baptismo

Rosa dos ventos

Perdida seara...

O fogo purifica os corpos

O mar os olhos...

Tristeza

É amar sem ser amado

É nunca ter sabido amar

É estar só e não saber ser gente

Tristeza

É ser tudo e não ter nada

É ver quem passa

Não tendo para onde ir também

Tristeza ... ah tristeza

É ter um sentimento que já não tenho

É saber-se nu sem ter o que vestir

É saber-se amado e não amar

És triste tu

Que só, continuas tua vida

Condenando a minha

Forma estranha de viver

Sábias palavras

Só é triste quem quer ser

Eu invento-me e renasço

Num mergulho profundo

No centro da terra

Pelo mar subo

Ao fim de mim

E quando julgares que é esse o meu fim

Estarei olhando quem passa

Rindo miséria e chorando alegria

Pois eu serei sempre assim

29 de julho de 2007

DESALENTO


Desalento

Sim, vai e diz

Diz assim

Que eu chorei

Que eu morri

De arrependimento

Que o meu desalento

Já não tem mais fim

Vai e diz

Diz assim

Como sou Infeliz

No meu descaminho

Diz que estou sozinho

E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco

Diz a ela que estou louco

Pra perdoar

Que seja lá como for

Por amor

Por favor

É pra ela voltar

Sim, vai e diz

Diz assim

Que eu rodei

Que eu bebi

Que eu caí

Que eu não sei

Que eu só sei

Que cansei, enfim

Dos meus desencontros

Corre e diz a ela

Que eu entrego os pontos
Chico Buarque - Vinicius de Moraes

30 de junho de 2007

SEGRÊDO

SEGRÊDO

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho novo.
Mas escusam de me atentar.
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino.
E guardar
Este segrêdo comigo.
E ter depois um amigo.
Que faça o pino.
A voar...

24 de junho de 2007

Preciso de me sentir Amado


De repente o silêncio,
a insegurança e o medo parecem flutuar no agora.
Os sentimentos que se misturam,
a lágrima que insiste em cair.
Sinto o peito apertado,
nada faz sentido, e um pensamento permanece...
Eu quero sentir-me amado,
beijar uma boca, mesmo sem a ter,
se assim tiver de ser.
Mas ter o calor desse corpo,
mesmo que por breves instantes.
Talvez assim me sinta vivo,
é que ultimamente ando tão moribundo.
Não consigo ter pena de mim mesmo
o que me deixa ainda mais frustrado.
Pergunto-me porque te sentes assim?
As respostas são tantas,
que a única que faz sentido é que
Deus está furioso comigo.
Perdi-me do trilho que me foi destinado,
agora estou a pagar o meu pecado.
Mas ainda não estou preparado
falta-me o tempo.
Precisava sentir-me amado,
nem que fosse por um momento,
talvez assim tivesse outro alento.
Vida madrasta
que teimas em ser carrasca.
Eu digo-te sempre que amar não são só palavras
são pensamentos loucos,
e sentimentos adulterados
que são para poucos.
Queria sentir-me amado!

6 de junho de 2007

Rio Cubal


Luanda


Num domingo...

Fuga para a Infância
Nas tardes de domingo
(cheirava a doce de coco e rebuçado)
os meninos brincavam
iam passear ao mar
até o Morro iam
ver a gente.

O menino ficou preso
quando cresceu.

E nas tardes de domingo
vozes vinham chamá-lo
vinham ecos de vozes
que lindas vozes o menino ouvia!

Mas o menino estava preso
e não saía...

Numa tarde de domingo
os outros meninos vieram chamar
o menino preso...
E foi nessa tarde de domingo
(cheirava a doce de coco e rebuçado)
que o menino fugiu para não voltar

5 de junho de 2007

O Rio

Pela tardinha da tarde
sereno vai o Cuanza
e a piroga atravessando
quando o sol já se expande
para lá do horizonte...
Nada mexe, nada vibra.
Tudo é prata, tudo é folha.
Deus, como é belo o meu Rio!
Tudo é sereno silêncio
só a piroga ondula, negra,
na prata lisa da água.